Texto da pesquisadora em Dança Ciane Fernandes (para estudos cênicos)


A dança teatro de Pina Bausch: Redançando a história corporal

By *Ciane Fernandes

 

Escrever [e dançar] é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? Assim: como se me lembrasse. Com um esforço de memória, como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.

Clarice Lispector

 

Desde 1973, quando assumiu a direção do então Wuppertal Ballet, Bausch tem se destacado como líder de uma corrente artística de notável importância nas artes cênicas de nosso século: o tanztheater, ou dança teatro.

A história da dança teatro alemã pode ser traçada a partir dos trabalhos de Rudolf von Laban e seus discípulos Mary Wigman e Kurt Jooss, nos anos 20 e 30. O termo dança teatro era usado por Laban (1879-1958) para descrever dança como uma forma de arte independente de qualquer outra, baseada em correspondências harmoniosas entre qualidades dinâmicas de movimento e percursos no espaço. Ainda que considerando a dança como uma arte independente, Laban desenvolveu seu sistema de movimento a partir de improvisações de Tanz-Ton-Wort (Dança-Tom-Palavra), nas quais os estudantes usavam a voz, criavam pequenos poemas, ou dançavam em silêncio.2  As peças de dança então criadas incorporavam movimento cotidiano, bem como movimento abstrato ou puro, em uma forma narrativa, cômica, ou mais abstrata.

Wigman fundou a Ausdruckstanz, dança da expressão. Ausdruckstanz foi uma rebelião contra o balé clássico, buscando uma expressão individual ligada a lutas e necessidades humanas universais.

Já a dança teatro de Jooss desenvolvia temas sócio-políticos através da ação dramática de grupo e da precisão da estrutura formal e de produção.4  O treinamento de dançarinos sob sua direção na Escola Folkwang, em Essen, Alemanha, combinava música, educação da fala, e dança, usando elementos do balé clássico e as teorias de Laban de harmonia espacial e qualidades dinâmicas de movimento.

As teorias e práticas teatrais de Bertold Brecht, e seus temas sócio-políticos, são também relevantes à história da dança teatro alemã. O teatro épico criou conceitos como os de gestus, o efeito de distanciamento, a técnica da montagem, e momentos cômicos inesperados. O conceito brechtiniano de Gestus ou Gebärde enfatizava uma combinação de ações corporais e palavras como um gesto socialmente significante, não ilustrativo ou expressivo.5  Através de tais efeitos, o teatro épico de Brecht instigava o reconhecimento de situações cotidianas pelo espectador, e sua ação e tomada de decisão para mudá-las.

O trabalho de Bausch combina seu treinamento com Jooss na Escola Folkwang e como solista na companhia dirigida por ele, a Folkwangballet,6  com sua experiência das artes e dança em New York nos anos 60.7  Muitos dançarinos e coreógrafos norte-americanos reagiam então as técnicas de dança moderna, e juntavam-se a artistas plásticos e músicos na produção de trabalhos colaborativos, expressando preocupações sócio-políticas sobre os direitos humanos, o meio-ambiente, feminismo, e questionando o conceito de arte. Artistas pretendiam derrubar a separação entre arte e vida cotidiana, dançarinos/atores e platéia. As peças colaborativas envolviam movimentos e trajes da vida cotidiana, contra uma representação teatral formal e artificial.8

Nesses trabalhos interativos dos anos 60,

Técnicas de Colagem eram usadas, ao invés de temas centrais. […] Modelos de sons ou de movimentos eram usados em repetição para criar efeitos hipnóticos. […] Coreógrafos agora estavam colocando seu foco em movimentos de pedestres e observando relações humanas básicas das pessoas ditas normais.

Ambas influências de Bausch — Jooss e trabalhos norte-americanos de interartes — enfatizam relações humanas, vocabulário de movimento cotidiano, e colaboração entre diferentes formas de arte.

Em suas obras de dança teatro, Bausch incorpora e altera suas influências. Seus trabalhos incluem a interação entre as diferentes formas de artes como nos Estados Unidos dos anos 60, mas de uma forma crítica. Suas peças apresentam um caos grupal generalizado, com uma ordem inerente, favorecendo processo sobre produto. Além disso, as peças provocam experiências inesperadas em ambos dançarinos e platéia. Mas as obras de Bausch atingem tais qualidades seguindo um caminho distinto daquele dos anos 60. Suas peças apresentam a interação entre as artes sem rejeitar a grandiosidade teatral.10  A interação, pelo contrário, acontece de forma majestosa, aumentada, semelhante àquela de grandes produções de ópera ou balé, e mesmo cinema. O forte impacto visual e auditivo de suas peças muitas vezes projeta impressões cinematográficas na platéia. Para a surpresa desta, tais majestosas imagens de repente abrem espaço para cenas quase vazias, silenciosas, e com pouca luz.

Os elegantes trajes de noite e maquiagem de seus dançarinos completam o grandioso quadro cênico. Em vez de vestirem simples roupas cotidianas, como nos trabalhos interativos dos anos 60, ou malhas sem distinção de gênero, como na dança abstrata, os dançarinos de Bausch vestem-se como que para um grande evento social. Seus figurinos e maquiagem determinam seus papéis sociais e sexuais, instigando a expectativa de um grande evento. Mas por muitas cenas, dançarinos apenas caminham, conversam, dançam pequenos movimentos, falam com a platéia, olham para nós, quebrando nossas expectativas e despertando nosso desejo por movimentos de dança.

O uso de materiais reais e muitas vezes orgânicos sobre o chão do palco, como água, terra, cravos, ou sal, assemelha-se aos trabalhos interativos dos anos 60, mas em uma maior escala de produção. Diferente daqueles trabalhos interativos, as obras de Bausch não parecem buscar uma quebra da barreira entre a representação cênica e a vida. Pelo contrário, seus trabalhos incorporam movimentos e elementos da vida diária justamente para demonstrar que são tão artificiais quanto a apresentação cênica. E esta demonstração, como será visto posteriormente, é feita através da repetição de ambos movimentos e palavras. Espontaneidade é uma experiência inesperada, imprevisível, que pode acontecer apenas através de tais repetições.

A coreografia de Bausch incorpora e altera balé em sua forma e conteúdo, usando movimentos técnicos e cotidianos. Seu trabalho aproxima-se do de Wigman em sua utilização das experiências de vida dos dançarinos, mas distingue-se por não recusar a técnica clássica, usando-a de forma crítica. Os dançarinos de Bausch, como os de Jooss, são todos bailarinos muito bem treinados, porém com trinta ou quarenta anos de idade — mais maduros e experientes, na vida e na dança, do que dançarinos mais jovens.

Laban definiu dança como o que ocorre quando o movimento humano cria composições de linhas no espaço o qual, de um começo definido, mostra um desenvolvimento estrutural, um crescimento levando a um clímax, uma solução e um final, o que implica uma noção de integralidade.11  Bausch diverge deste enfoque, estruturando cenas através da técnica da colagem com livre associação. Pequenas cenas ou seqüências de movimento são fragmentadas, repetidas, alternadas, ou realizadas simultaneamente, sem um definido desenvolvimento na direção de uma conclusão resolutiva.

Repetição é um método e um tema crucial na dança teatro de Bausch. Como um instrumento estético, a repetição em seus trabalhos questiona a história e a psicologia desta arte cênica. Através da repetição de movimentos e de palavras, Bausch parece confirmar e alterar as tradições da dança teatro alemã, explorando a natureza da dança e do teatro e suas implicações psicológicas:

A história do teatro pode ser traçada desde o início da civilização européia (ao teatro grego). Ele tem sempre sido parte de, e protegido por, uma cultura baseada na linguagem verbal; uma cultura que por muito tempo estava convencida de que tudo, ou quase tudo, poderia ser dito com palavras. A história da dança é muito mais difícil de se juntar, devido ao fato de que dança não pode ser gravada na escrita. […] [Hoje] há ainda a tendência de se considerar atores como os intelectuais do palco, e dançarinos como seres espontâneos capazes de entrar em contato com as forças escondidas do universo. Nossas mentes ainda se apegam à idéia de que dentro de cada homem há uma divisão entre mente e corpo. Corpo/mente, coração/cabeça nessas construções binárias nós mais uma vez encontramos a dicotomia básica do masculino/ feminino.12 

Esta convenção de ambos teatro e dança tem sido quebrada pela dança teatro alemã desde seu início. Na dança teatro de Laban, o dançarino era um integrado ser que pensava-sentia-fazia.13  O método de Laban era fundamentado primeiramente em pensando em movimento, o que desenvolvia uma consciência que não deve ser confundida com um enfoque cognitivo ou intelectual, pois ele demanda que a dança seja experienciada e entendida, sentida e percebida pelo indivíduo como um ser completo.14  Juntamente com essa filosofia, Laban criou um sistema de notação apropriado ao entendimento da dança como linguagem cinestésica ou simbólica, diferente de expressão espontânea e de linguagem discursiva.15  Para Laban, dança tem um conteúdo significativo, compreensível.16

Nas obras de Bausch, dança e teatro são trazidas ao palco como linguagem verbal e corporal, mas não como uma totalidade de corpo-mente ou forma-conteúdo.17  Ao contrário, a natureza lingüística de ambos dança e teatro é explorada como intrinsecamente fragmentada. Através da fragmentação e da repetição, seus trabalhos expõem e exploram a lacuna entre a dança e o teatro, em nível estético, psicológico, e social: movimentos não completam palavras em busca de uma comunicação mais completa; o corpo não completa a mente em busca de um ser total ou de uma presença mais completa no palco; mulher e homem não formam uma unidade liberando o indivíduo de sua solidão. Repetição quebra a imagem popular de dançarinos como seres espontâneos, e revela suas insatisfações e desejos em uma cadeia de movimentos e palavras repetitivas.

Gestos são movimentos corporais realizados na vida diária ou no palco. No cotidiano, gestos são parte de uma linguagem do dia-a-dia associada à determinadas atividades e funções. No palco, gestos ganham uma função estética; eles tornam-se estilizados e tecnicamente estruturados, dentro de vocabulários específicos, como balé ou dança moderna norte-americana. Bausch utiliza ambos tipos de gestos — cotidiano e técnico. Em muitos casos, porém, gestos cotidianos são trazidos ao palco e, através da repetição, tornam-se abstratos, não necessariamente conectados com suas funções diárias.

Quando um gesto é feito pela primeira vez no palco, ele pode ser (mal) interpretado como uma expressão espontânea. Mas quando o mesmo gesto é repetido várias vezes, ele é claramente exposto como um elemento estético. Nas primeiras repetições, o gesto gradualmente se mostra dissociado de uma fonte emocional espontânea. Eventualmente, as exaustivas repetições provocam sentimentos e experiências em ambos dançarino e platéia. Significados são transitórios, emergindo, dissolvendo, e sofrendo mutações em meio a repetições. Estas provocam uma constante transformação da dança teatro dentro da linguagem simbólica.18

Em Arias (1979), um boneco muito semelhante a um hipopótamo real surpreende a platéia ao entrar vagarosamente no palco, não sendo visto pelos dançarinos. Logo Josephine Ann Endicott encontra-se sozinha no palco com o animal. Ela ri continuamente, olhando para o mesmo entre seus ataques de riso, e sai do palco guiando-o para que se retire. Sua primeira gargalhada parece convincente, expressiva de sua experiência ao deparar com tal inesperado evento. Mas assim que continua repetindo tal expressão corporal e sonora, esta perde sua força mensageira de sensações internas, e parece significativa em si mesma, como signos constantemente escapando uma essência significativa. Sua ausência de significado, seu absurdo, eventualmente torna-se seu significado. A risada de fato denuncia a falsidade de expressão na dança da vida e do palco, a independência e até oposição entre sentimento e expressão. Mais uma vez, o público se surpreende, flagrado ao ver sua própria reação inicial (surpresos com o animal antes mesmo de Endicott) ser incorporada e distorcida em cena, como se num efeito de espelho.19 [ver ilustração da quarta capa]

Nos trabalhos de Bausch, palavras são repetidas até que se dissolvam seus significados literais. Eventualmente, o corpo e sua anatomia, patologias e dores, são evocadas por aquelas mesmas palavras. Através da repetição, o meio teatral da palavra torna-se um referente à fisicalidade da dança.

Em outra cena de Arias, oito dançarinos falam a respeito de seus corpos, em uma repetitiva e lúdica estrutura, enquanto vagarosamente caminham em direção à platéia. A frase dita por um dançarino é repetida pelos demais, um a um, apenas mudando a parte do corpo mencionada, evocando imagens surreais ou grotescas a partir da primeira frase lógica:

Meu ombro é ossudo, Meu olho é ossudo, Meu nariz é ossudo, Meu pé é ossudo, Meu joelho é ossudo, Meu estômago é ossudo, Meu umbigo é ossudo; Meu nariz tem dois buracos, Meu pé tem dois buracos, Meu joelho tem dois buracos, Meu estômago tem dois buracos, Meu umbigo tem dois buracos, Meu ombro tem dois buracos, Meu olho tem dois buracos; Eu não posso ver meu estômago, Eu não posso ver meu pé, etc.; Você viu meu estômago?, Você viu meu pé?; Eu ando nos meus pés, Eu ando no meu joelho, Eu ando no meu estômago, Eu ando no meu nariz, etc.

A dança teatro de Bausch, como a de Laban, entrelaça dança e palavras em um tipo de consciência que não deve ser confundida com um enfoque intelectual. Mas o trabalho de Bausch implica em uma constante incompletude, busca e transformação dentro de um pensar-sentir-fazer fragmentado, ao invés de integrado:

Os passos têm vindo sempre de algum outro lugar — nunca das pernas. […] É simplesmente uma questão de quando é dança, e quando não é. Onde começa? Quando chamamos de dança? Têm de fato algo a ver com consciência, com consciência corporal, e a maneira como formamos as coisas. Mas então não precisa ter este tipo de forma estética. Pode ter uma forma totalmente diferente, e ainda assim ser dança. Basicamente, se quer dizer algo que não pode ser dito pois a expressão do material interno implicaria sua transformação em linguagem, faz-se então um poema para que se possa sentir o que se quer dizer. Então palavras, eu acho, são um meio — um meio para um fim.20  [grifo meu]

Definida como consciência corporal e a maneira na qual formamos as coisas, a natureza simbólica da dança teatro é associada ao desenvolvimento humano físico e psíquico. De fato, como colocado por Jacques Lacan, é através da linguagem simbólica que o ego não apenas interage com o mundo, mas é em si mesmo construído física e psiquicamente, em sua imagem corporal.21

Segundo Lacan, a imagem corporal inicia sua formação na infância, através de sucessivas internalizações de específicas imagens externas. A construção deste mapa corporal não depende de leis biológicas, mas sim de significações e fantasias de familiares a respeito do corpo. A imagem corporal é, então, a repetição do mapa ambiental ou sócio-familiar na própria psique e órgãos físicos do indivíduo. É através da imagem corporal que o esquema de gestos e posturas de uma sociedade é transmitido. A identidade corporal individual não é autêntica nem contrastante à sociedade. O corpo individual é um corpo social — uma construção em nível psico-físico, constantemente permeada e controlada por repetitivas normas de disciplina em meio à relações sociais de poder.22

Através da repetição, Bausch não apenas expõe a natureza simbólica da dança teatro, mas também explora o mapa corporal adquirido através da repetição desde a infância. Seus dançarinos freqüentemente repetem em cena momentos daquela fase de suas vidas, mostrando como incorporaram padrões sociais. Em outras palavras, eles repetem os momentos nos quais começaram a repetir movimentos e comportamentos de outras pessoas. Eles atuam medos infantis em ingênuos jogos e rituais, às vezes todos representando crianças, às vezes adultos e crianças.23

Em um momento de 1980, os dançarinos contam verbal e gestualmente à platéia estórias sobre seus medos do escuro e da solidão. Mechthild Grossmann relata:

Por mais de trinta anos eu tenho sido notadamente cuidadosa para nunca ficar sozinha no escuro jamais. Eu não podia suportar; eu entrava em pânico. Por causa disso, eu sempre carrego velas comigo; especialmente quando viajo. Ao exterior ou a outros continentes — nunca sem minhas velas, jamais; por causa da eletricidade… nunca se sabe. E quando criança, eu estava deitada em meu berço, com todas aquelas grades, você sabe [gestualizando grades ao seu redor]. E eu saía, abria a porta da cozinha só um pouquinho, para que um pouquinho de luz pudesse entrar. E quem entrava? Minha babá. E ela me batia!

Enquanto fala, Grossmann parece reexperienciar o tapa com surpresa, apertando seus cotovelos tensa e rapidamente contra as laterais de seu tórax, forçando seu corpo um pouco para cima e fechando os olhos. Em seguida relaxa, abre os olhos em estado de alerta, olhando para o lado e abrindo em um sorriso, como se surpresa porém satisfeita pelo toque de sua babá, que parece quebrar o anterior momento de solidão.

E fechava a porta. Eu saía de novo, abria a porta, ela entrava, e me batia! [Repete os mesmos gestos] E então nós ficávamos assim, você sabe… Eu saía, abria a porta, ela entrava, e me batia! [Repete os gestos] Então eu prefiro apanhar do que ficar sozinha no escuro; e nunca sem minhas velas jamais; por causa da eletricidade… nunca se sabe. Eu? Nunca. Eu? Nunca. Nunca, jamais.

A cena de Grossmann é um complexo de reconstruções. Ela não apenas redança sua experiência de infância, expondo um dos momentos no qual aprendeu a tornar-se repetitiva, mas incorpora tal mecanismo esteticamente, repetindo sua própria reconstrução durante a cena. Seus gestos, apesar de claramente ilustrativos de suas palavras, acontecem no presente, dissonando dos verbos em tempo passado. Sua insistência em afirmar suas experiências demonstram um desejo ou necessidade recorrente em ambos palco e vida, numa busca simbólica (pessoal, social, e estética) nunca satisfeita. Dançarinos entram em cena um após o outro, com uma leve sobreposição de solos, contando suas estórias numa corrente coletiva de repetições (cadeia significante).

Através da repetição, a dança teatro de Bausch contém ambos interesses: o de Wigman, com a expressão pessoal e psicológica, e o de Jooss, com questões sociais e políticas.24  Seu trabalho expande o gesto social de Brecht para uma política corporal individual:

[Apesar de a] dança teatro de Pina Bausch […] usar alguns dos conceitos básicos do teatro épico-gestus, efeito V, um certo uso do cômico como uma súbita virada de percepção […] seus objetivos políticos são diferentes […]. A diferença é que seus atores mostram a si m esmos; a divisão entre corpo e papel social no palco é experienciada e apresentada em seus próprios corpos. Eles são os demonstradores de seus próprios corpos [com suas histórias], não do corpo de algum transeunte, como no modelo de cena de rua de Brecht.25

Re-apresentar cenas passadas em apresentações no presente implica na reconstrução física e verbal da história do dançarino, registrada em seu próprio corpo, transformando-a em uma forma estética. Como dito por Lacan:

O fato de que o sujeito revive, rememora, no sentido intuitivo da palavra, os eventos formadores da sua existência, não é, em si mesmo, tão importante. O que conta é o que ele disso reconstrói. […] O centro de gravidade do sujeito é essa síntese presente do passado [realizada em cena] a que chamamos história.26 

Através da repetição de gestos, palavras, e experiências passadas, a dança teatro nas obras de Bausch pode ser definida como a consciência do corpo quanto à sua própria história como tópico simbólico e social em constante transformação.

 

* Ciane Fernandes,professora adjunta da Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA, Ph.D. e M.A. pela New York University, e C.M.A. (Certified Movement Analyst) pelo Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies, New York. Enfermeira e arte-educadora pela UnB.

 

1 Para não esquecer. São Paulo: Ática, 1979, p. 21.

2 OSBORNE, Claire. The innovations and influence of Rudolf Laban on the development of dance in higher education during the Weimar period (1917-1933) in Working Papers, v.2. Londres: Laban Centre, 1989, p. 90.

3 Para uma concisa descrição da filosofia de Wigman, vide Dianne S. Howe, The notion of mysticism in the philosophy and choreography of Mary Wigman 1914-1931, in Dance Research Journal 9, nº 1. Summer 87, p. 19-24; e WIGMAN, Mary. The language of dance. Connecticut: Wesleyan University Press, 1966.

4 Para referências históricas e filosóficas do trabalho de Jooss, vide MARKARD e MARKARD, Jooss Köln: Ballett-Bühnen Verlag, 1985; WALTHER, Suzanne K. The dance theatre of Kurt Jooss. London: Harwood Academic Publishers, 1993, v.3. London: WILLET, John. Art and politics in the Weimar period: the new sobriety, 1917-1933. New York: Pantheon Books, 1978.

5 Chamamos esfera do gesto à esfera a que pertencem as atitudes que as personagens assumem em relação umas às outras. A posição do corpo, a entoação e a expressão fisionômica são determinadas por um gesto social; as personagens injuriam-se mutuamente, cumprimentam-se, esclarecem-se, etc. As atitudes tomadas de homem para homem pertencem, mesmo, as que, na aparência, são absolutamente privadas, tal como a exteriorização da dor física, na doença, ou a exteriorização religiosa. A exteriorização do gesto é, na maior parte das vezes, verdadeiramente complexa e contraditória, de modo que não é possível transmiti-la numa única palavra; o ator, nesse caso, ao efetuar uma representação necessariamente reforçada, terá de fazê-lo cuidadosamente, de forma a nada perder e a reforçar, pelo contrário, todo o complexo expressivo. BRECHT, Bertold. Pequeno organon para o teatro in Estudos sobre teatro para uma dramaturgia não-aristotélica. Lisboa: Portugália Editora, 1957, p. 199.

6 Bausch estudou balé até completar 15 anos, quando foi para o Departamento de Dança da Folkwang Schule, dirigido por Jooss. Em 1960 ela continuou seus estudos na Juilliard School of Music, em New York, como aluna especial. Em 1962, retornou a Alemanha e tornou-se solista e coreógrafa do Folkwangballet, dirigido por Jooss. Em 1969, tornou-se diretora deste ballet, que passou a chamar-se Folkwang Tanzstudio. Desde 1973 ela dirige o Ballet do Teatro de Wuppertal, que teve seu nome mudado para Wuppertal Tanztheater. Nos anos 80, ela passou a dirigir o Departamento de Dança da Folkwang Schule.

7 Os professores de Bausch em 1960-61 incluíram Antony Tudor, Jose Limón, Anna Sokolow, Alfredo Corvino, Margret Craske, Louis Horst, e La Meri. Simultaneamente, ela tornou-se membro da Dance Company Paul Sanasardo and Donya Feuer. Em 1961, dançou no New American Ballet e na Metropolitan Opera House, colaborando também com Paul Taylor.

8 Para uma descrição mais detalhada destes projetos colaborativos e suas filosofias, vide HASKELL, Barbara. BLAM! The explosion of Pop, Minimalism, and Performance 1958-1964. New York: Whitney Museum of Art, 1984. Bausch foi influenciada pela colaboração entre as artes em ambas experiências norte-americana e européia. A dança teatro alemã parece ter se desenvolvido neste contexto interativo. Durante as primeiras décadas deste século, a interação entre as diferentes áreas artísticas era a principal qualidade dos movimentos europeus de vanguarda, como o Dada e a Bauhaus. Estes movimentos artísticos desenvolveram-se próximos a, ou mesmo interagindo com dança teatro. O próprio Laban era um arquiteto e designer, e seus símbolos para a notação de dança assemelham-se aos da pintura construtivista russa. A influência daqueles movimentos de vanguarda nos trabalhos de Bausch, é descrito por Thomas McEvilley em Pina Bausch, Artforum, october, p. 84, 85-6: [A peça de Bausch] 1980 […] revive o vocabulário das performances Dada, trazendo-o a vida com um extraordinário vigor. Para maiores referências, vide GOLDBERG, Rose Lee. Performance art: from Futurism to the present. New York: Harry N. Abrams, 1988, e Naima Prevots, Zurich Dada and Dance: Formative Ferment, Dance Research Journal. Spring-Summer 1985, p. 3-8.

9 PARTSH-BERGSOHN, RoseLee. Dance theatre from Rudolph Laban to Pina Bausch in Dance Theatre Journal v.6, nº 2. July 1988, p. 38. Para maior referência sobre a dança norte-americana nos anos 60, vide BANES, Sally. Terpsichore in sneakers: post-modern dance. Boston: Houghton Mifflin Company, 1980.

10 Nesse aspecto, o trabalho de Bausch está de acordo com a filosofia de Jooss. Jooss defendia a criação de peças de dança que incluíssem ambas forma e apresentação altamente técnicas, e conteúdo emocional, associando divertimento e arte socialmente crítica: Estamos vivendo numa época que está redescobrindo a forma artística. Em dança isto significa que do caos dos movimentos arbitrários e casuais, apenas os mais essencialmente importantes serão desenvolvidos […]. Um compromisso criativo entre a expressão livre do indivíduo e condescendência formal com leis objetivas e intelectuais está se desenvolvendo: um compromisso no mais nobre sentido, que pode também ser descrito como axial ao mundo da arte. Jooss, na introdução de MÜLLER, Hedwig in Jooss, de MARKARD, A. and MARKARD, H. Köln, Germany: Ballett-Bühnen-Verlag, 1985, p.16-7.

11 BARTENIEFF, Irmgard. Body movement: coping with the environment. Pennsylvania: Gordon & Breach Science Publishers, 1980, p.191.

12 KERKHOVEN, Marianne van. Dance, theatre, and their Hazy Boundaries in Ballet International, Special Issue 1. January 1993, p. 30.

13 BARTENIEFF, Irmgard. The roots of Laban Theory: Aesthetics and beyond in Four adaptations of effort theory in research and teaching. New York: Dance Notation Bureau, 1970, p. 11. Mesmo hoje, no Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies, New York, esta integração é um requerimento em exames finais, apresentações e projetos, para receber o Certificado de Analista de Movimento. Integração é interpretada como a habilidade do estudante em expressar a linguagem Laban de movimento verbal e fisicamente, com envolvimento emocional e pessoal.

14 OSBORNE, Claire, op. cit., p. 94.

15 De acordo com Susanne Langer, todo trabalho de arte consiste em linguagem simbólica — o meio pelo qual sentimentos são articulados. A linguagem simbólica da música, por exemplo, difere de linguagem porque seus elementos não são palavras símbolos associativos independentes com uma referência fixada pela convenção. […] ela não é linguagem porque não tem vocabulário. LANGER, Susanne. Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva, 1980, p. 33. No capítulo, Langer usa as teorias de Rudolf Laban como apoio e exemplo à sua tese.

16 BARTENIEFF, Irmgard. Body movement, ibid., p. 191.

17 A quebra de completude entre forma e significado conseqüentemente modifica o conceito de linguagem nas obras de Bausch, evocando mais a cadeia significante de Lacan, composta de signos, do que a linguagem simbólica de Langer, composta de símbolos. Vide KRISTEVA, Julia. From symbol to sign in The Kristeva reader. New York: Columbia University Press, 1986, p. 63-73.

18 O termo Simbólico, iniciado com “S” maiúsculo, refere-se ao estágio linguístico do desenvolvimento do ego narcisista descrito por Lacan (que aborda signos, auto-referentes, multiplicadores de si mesmos e abertos a infinita significação a partir de suas inter-relações em uma cadeia significante), distinto de simbólico ou linguagem simbólicade Langer (que aborda símbolos nos quais cada significante corresponde a um significado). LACAN, Jacques. A rede dos significantes in O seminário livro 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, p. 45-55; A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud in Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 223-259. Vide também VALLEJO, Américo e MAGALHvES, Ligia C. Lacan: operadores da leitura. São Paulo: Perspectiva, 1991.

19 The mirror stage as formative of the function of the I in Écrits. New York: W. W. Norton & Company Inc., 1977, p. 1-7. Este capítulo, traduzido de Écrits, Éditions du Seuil, 1966, por Alan Sheridan, não consta na tradução para a língua portuguesa Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1978.

20 SERVOS, Norbert and WEIGELT, Gert. Pina Bausch Wuppertal Dance Theater or The art of training a goldfish. Excursions into dance. Köln: Ballett-Bühnen-Verlag, 1984, p. 239. As palavras de Bausch me inspiraram a usar o fragmento poético na abertura deste artigo.

21 The mirror stage as formative of the function of the I, ibid.

22 O conceito de repetição em relação ao controle disciplinário do corpo, no trabalho de Bausch, é o tema de outro capítulo de minha tese de doutorado intitulada Pina Bausch and the Wuppertal Dance Theatre: repetition and transformation. New York University, 1995, a ser publicada pela HUCITEC. As principais referências são FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento e prisão. 6a ed. Petrópolis: Vozes, 1988. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1980.

23 WRIGHT, Elizabeth. Postmodern Brecht: a re-presentation. London: Routledge, 1989, p. 116.

24 Esta afirmação pode parecer paradóxica, já que as filosofias de Wigman e de Jooss parecem tão opostas. Porém, contradição e paradoxo são importantes qualidades da dança teatro de Bausch.

25 WRIGHT, Elizabeth, op. cit., p. 118-9. 25 WRIGHT, Elizabeth, op. cit., p. 118-9.

26 LACAN, Jacques. O seminário livro I – os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1986, p. 22,

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